terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Escolhi ser amada...



A tua falta vai rasgando tudo o que encontra pelo caminho.
Não te ter aqui na minha vida, não te poder abraçar, vai abrindo um buraco no meu coração. É como se a morte quisesse bater na minha porta. 
Foi por essa razão que me tranquei por dentro, para não a deixar entrar. 
A tua falta é como não ter força para respirar. É como sentir que o tempo me sufoca e que a lembrança me atordoa, só de pensar que tu não estás aqui ao meu lado.
Tento enganar o pensamento. 
Tento retardar o meu olhar, desviando os olhos do relógio para não contar as horas que faltam para tu voltares. Fecho os olhos na ilusão de me enganar a mim mesma dizendo que tudo é mentira e dentro de instantes tu vais estar aqui a sorrir para mim.
Engano-me para acreditar que estás apenas ausente e não é a dor da tua partida que me dói. 
Quero apagar a distância e para isso quero provar à minha mente que tu não estás aqui, mas ainda me amas. Digo a mim mesma que a distância não existe para quem ama e que quando acordar deste pesadelo tu vais estar por perto para me abraçares. 
Procuro em todos os recantos da casa o teu cheiro, mas tu não estás por ali. O teu cheiro que vive entranhado nos meus pensamentos já não mora naquela casa. Sinto as nossas memórias a saltitarem por ali, mas não te consigo tocar, tu já fugiste de vez de mim. 
Eu sei que tu existes, só que estás distante e não deixaste abraços suficiente para confortarem a minha dor, nem estás à proximidade de um beijo que possa calar este sofrimento que só quer gritar pelo teu nome. 
Tenho que aceitar que a tua ausência é definitiva e que está a abrir fendas neste meu frágil coração. 
Vivo entre o dia e a noite onde encontro a realidade do que em tempos foi um sonho, vejo-me sozinha na escuridão daquele quarto que até há pouco tempo era iluminado com o brilho de uma paixão que parecia ser eterna. 
O amor conhece o caminho até ti, sabe onde tu estás, mas a razão já lhe fez ver que é inútil fazer essa caminhada. Talvez por isso me sinta como uma ave fora do ninho. Sou como uma casa sem pilares, ou até talvez, como um rio sem água. Sinto-me desprotegida e apenas a saudade, de vez enquanto, por aqui aparece para me abraçar e conversar com as minhas memórias. 
É a saudade que me ampara nas horas em que tudo o resto me tira o chão que piso. 
A tua ausência é como que uma sombra que me tapa e como um grito de solidão que se solta de dentro desta alma aflita, que procura explicações para a tua partida.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Vida



A minha vida têm memórias
Que a lembrança desconhece
Feitas de tantas histórias
A que o meu coração desobedece


São os momentos construídos
Longe da alma e da emoção
Que fizeram despertar os sentidos
Sem conhecerem a sua explicação


Lugares que foram os meus abrigos
Nos tempos que quero recordar
O cheiro dos meus amigos
Que para sempre vou guardar


A perfeição de um ser imperfeito
Nos momentos de tomar uma decisão
As loucuras de um coração perfeito
Que muitas vezes perdeu a razão
Não sabendo para que lado era o norte


Chorei por isso de alegria
Sorri da minha triste sorte
Vesti a farda da fantasia
Para enganar o seu medo
Viajei pelo mundo desconhecido
Onde fiz da existência segredo


Para que não fosse seguido
Pelo infortúnio do tempo
Que me atormenta a todo o momento
Fazendo da minha vida um contratempo
A que a memória chamou de lamento...


@angela caboz 

sexta-feira, 4 de outubro de 2019




Parecia um mendigo
Ficavam-lhe a olhar quando passava


Alguns temiam pelo perigo
Diziam que a meio mundo ele assustava
Ninguém lhe conhecia morada
Não se sabia do que se alimentava


No rosto tinha a tristeza pintada
Pela sorte que lhe faltava
Não tinha nada e sobrava-lhe tudo
Recebia o que já ninguém queria
O que era lixo para o mundo
Para ele era a fortuna que o alegraria


Sobrava-lhe o frio nas noites de Inverno
Dividia calor nos dias de Verão
Não reclamava que a sua vida era um inferno

Sempre encontrava uma explicação
Para o que ninguém compreendia

Tomara de assalto o velho casarão
Que não sabia a quem pertencia
Onde sonhava ter tudo o queria
Não era um mendigo,
E nada ele pedia
Nem sequer um perigo

Era apenas alguém que vivia na solidão
O único presente que recebera da vida
E na falta de melhor servia-lhe de consolação


@angela caboz    

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Linhas de uma história





São as linhas de uma história
As palavras com que se escreve este fado
a quem o tempo conta a idade.

Sentimentos entranhados no coração
Tristezas desenhadas no sorriso
Amores incrustados na pele
Ilusões marcadas no olhar

É tudo o que esta vida tem p'ra contar

O tempo agora anda em sentido inverso
O rosto perdeu a sua graça
A alma deixou de ter voz de anjo
Olha para o mundo e só vê desgraça


@angela caboz               

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Vidas entrelaçadas





Pedias-me, chorando um sorriso
Oferecias-me, lamentando-te, um carinho
Troquei-o por aquilo de que mais preciso
Que não me deixes aqui sozinho….


Falaste muito, sem falar nada
Disseste todas as palavras, que eu precisava ouvir
Palavras quentes, calor para quem se sente desesperada
E eu escutei, sem ter nada para em troca te pedir


Naquelas palavras, havia sentimentos
Mas também, lá moravam muitos ressentimentos
Ajudavas-me, libertando os teus próprios medos
Tu próprio te aquecias nas palavras, que saiam
Trocávamos, algo que se entrelaçava nas nossas vidas
E o teu calor e as palavras, 

derreteram o gelo dos meus segredos
Porque as nossas histórias convergiam


E tu sorriste e eu sorri
Nossas emoções quisemos unir
Porque naquele instante, tu sentiste e eu senti
Que havia um amor a surgir
Que iria passar a aquecer as nossas vidas
Para que todas mágoas fossem esquecidas

@angela caboz

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Amei-te ontem





Amei-te ontem
depois de hoje ter acordado
de mais um dos meus sonhos.
Estavas desenhado na minha alma
sem nunca te ter visto com os olhos!

Amei-te ontem
com medo de curvas do tempo
que contornam qualquer vento
para escrever sobre os passados
em que os nossos corpos
se podiam ter amado.
Eu prefiro o cheiro das saudades
de um futuro sonhado
onde o nosso amor ficará guardado.

Amei-te ontem 
enquanto arrumava os meus sentimentos
(Re)escrevia poesia
no livro em aberto d'uma vida,
onde passei pelas páginas
semi-escritas
marcadas pelo teu amor
e foi aí, sem medos
que me completei, calando segredos
que nos separavam
quando as nossas verdades se encontravam

Amei-te ontem
Quando ainda dormias
e as minhas palavras ouvias
por saber
que hoje ao acordar
estarias noutro lugar
ocupado com a tua vida
Restando-me
ficar à tua espera
Sei que chegarás antes da Primavera
para nos amarmos no Outono
Trarás uma tulipa amarela
para juntar à tua rosa azul
que está no beiral da janela
Juntaremos o brilho do sol
ao sabor intenso do mar
para nos podermos finalmente amar

Amei-te ontem
Espero-te amanhã
Nesse tempo que não nos contém
porque as suas curvas 
seremos nós a desenhar!

@angela caboz

domingo, 22 de setembro de 2019

Outono





O Outono chegou
Tingiu as folhas das árvores,
que vão ficando despidas.
Há folhas caídas, por este chão que piso.
Há silêncio nas ruas por onde caminho.
Faltam as gargalhadas das crianças.
Faltam as cores
dos sonhos sonhados nas tardes de Verão,
e nas noites em que o calor da ilusão
nos fazia acreditar
que nunca seria Inverno nas nossas vidas.
O Outono chegou,
fechou a porta do calor.
Trancou a janela, por onde saltava o amor.
E a vida, ficou despida ,entregue à solidão.
A flor secou. O silêncio gritou.
A lágrima transforma-se em chuva.
O vento frio traz com ele o medo.
Rouba-nos a coragem.
Faz-se desta estrada o fim da viagem.
A casa está cheia, mas já não é Verão.
A casa está cheia daqueles
que com o tempo também partirão.
E, eu olho-me no espelho e vejo o Outono.
Há rugas no meu rosto
Folhas deste meu viver espalhadas pelo chão.
Há medo naquela face
Memórias de quem já viveu
e hoje se deixa levar pela solidão.
Batem-me na porta.
Deve ser o Inverno. Não vou abrir.
Ainda é cedo para ele chegar.
Ainda não aceitei a chegada do Outono!
Já ele quer entrar.
Que vá dar uma volta e regresse mais tarde.
As minhas gargalhadas ainda não adormeceram
e o Inverno vai mesmo ter que aguardar.
Quero que seja Outono, até o medo me matar.
Quero que seja Outono
Sem nunca me conformar que o tempo um dia vai acabar...
@angela caboz